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Juro que não sou obcecada por frutas, sei que vocês já não me suportam mais reclamando desse assunto, mas só vou contar essa história porque foi um daqueles episódios trágicos se não fossem cômicos e vice-versa. Lá estou eu na seção de frutas do supermercado, no carrinho o kit básico: laranja, maçã, banana, e a bola da vez que é a mexirica, quando vejo uma cesta com pêssegos lindos, lindos. Que alegria, uma frutinha que é bem boa por aqui. Lá vou eu felizona com minha aquisição pra fila da balança, passo meu saquinho com 3 pêssegos para o camarada que pesa as frutas e ele me perguntou com os olhos arregalados se eu tinha visto o preço. Eu, que estava bem distraída, respondi sem pensar que sim, embora isso fosse a mais absoluta mentira. No meio segundo que tive pra pensar em quanto seria o pessêgo o camarada, não satisfeito com a minha resposta, emendou “son 29 pesos el kilo”. Eu fiz uma cara bem blasé, já sem poder articular nenhuma palavra. E ele, por sua vez, segurou o olhar fixo no meu e ainda deu aquela paradinha antes que seus dedos tocassem o marcador da balança pra fazer a etiqueta de preço. Eu recebi o saquinho sai segurando a pose. Depois de chegar num corredor bem longe das frutas peguei o saquinho e pude conferir que aqueles 3 pêssegos custavam 17 pesos, caralho!!!! Com aquele saquinho me fazendo pressão dentro do carrinho, passei na gôndola de vinhos pra tentar pensar em algo mais agradável. Pedi recomendação de um bom vinho custo/benefício e a somellier me recomendou um UXMAL, cabernet suavignon com malbec, que dá uma arredondada no sabor final, ao preço de 23 pesos. Mas não teve jeito, cheguei em casa mais afim de comentar sobre o pêssego do que sobre o vinho. Fiquei na dúvida se o cara me advertiu do preço simplesmente pra não imprimir o ticket da balança a toa e ter que cancelar ali na hora se eu me desse conta do absurdo que custava. Ou se ele estava mesmo criticando minha atitude de compar uma coisa tão cara em tempos que o mar não está pra peixe. Enfim, isso é que dá querer comer fruta fora de sua temporada…..
O vice-presidente toma proveito do seu voto de minerva no senado contra a presidenta em relação ao aumento da taxa de exportação para produtos agro-pecuários, e o país segue sem andar. Não adianta a Cristina falar que o ato dele foi uma traição ao Peronismo, pois faz quase 6 meses que o assunto não conseguiu avançar em negociações amigáveis e, depois do povo bater muita panela na rua, deu no que deu. Aliás é muito argentino o impasse nas negociações. Se os dois lados se acham com a razão, ficam ali empacados por muito tempo. E enquanto o governo empaca, a inflação come solta. Na maioria das vezes, eu tenho apenas uma noção do preço das coisas, que sei o preço médio, mas que nem sempre identifico no detalhe o que foi exatamente que subiu, embora veja claramente o resultado dos aumentos na minha conta final do supermercado, fui impactada por um aumento há duas semanas: o sorvete de casquinha do Mc Donal’s subiu de 2 para 2,5 pesos. Puxa vida, 25%, é muita grana.
Se pensarmos a sério, as perpectivas para o jovem nesse país estão de mal a pior. Um recém formado com sorte ganha 2 mil pesos, com um pouco mais de experiência deve ganhar entre 4 e 5 mil, enquanto um apartamento de 2 quartos num lugar razoável é US$ 100 mil. Se esse jovem não morar com os seus “viejos” (nome carinhoso para referir-se aos pais) e ainda tiver que pagar aluguel e todas demais despesas, realmente fica complicado fazer o pé de meia. Ainda assim, acho que os argentinos vêm de um toada de país tão complicado que acabam achando esse momento de agora menos dramático. Afinal a crise de 2001 foi muito pior. Numa sessão revival, comentou-se sobre os cidadãos de classe média que entravam nas lojas junto com os salteadores “profissionais” , tomando proveito do arrastão que faziam estes mais desesperados. E que tinha gente que na hora H não levava o leite e a farinha não, e sim roubavam garrafas de champagne e aparelhos de dvd. E passada a crise o dono do estabelecimento batia na casa do camarada junto com a polícia para devolver as coisas, pois eram vizinhos conhecidos do bairro que participaram de tal barbárie. Tenho a impressão que por todo esse histórico o argentino hoje leva a vida bem no presente, aproveita o momento com os recursos que tem. Quem não tem mais grana pra curtir hábitos caros, acabou adaptando seu lazer para opções mais econômocas. Não vejo os argentinos se queixando. E nesse caso, nem acho que é porque eles não caem do salto não, acho que é por acreditarem mesmo em qualidade de vida e assim desfrutar o agora…. Racuma matata!
Fiz uma enquete com minhas visitas pra saber o que elas estavam achando de Buenos Aires.
A opinião unânime é que a cidade é mesmo muito linda e gostosa pra caminhar. As calçadas são amplas e as pessoas se sentem num lugar menos cheio de gente, muito mais prazerozo.
Críticas ao sabor do café, que aqui é moido com açúcar, e a falta de opção de sucos. E também reclamações sobre a falta de sal nas comidas, que aliás, de tudo que eu já reclamei dos hábitos alimentares daqui, essa observação da comida insossa tinha me passado batido, mas realmente procede. Aproveitemos pró pressão baixa e colesterol bom.
Outra coisa que eu nem tinha sentido falta ainda até meu irmão falar: “onde comemos um super hamburguer, tipo o do Fifths ou o do Joaquim’s?”. Na hora me deu aquela água na boca, mas a verdade é que não tem nada que chegue nem perto disso por aqui. Os váaaarios cafés da cidade vendem empanadas, tostados, medias lunas….e quando tem hamburguer é aquela coisinha sem graça que vem com os pacotinhos de maionese, ketchup e mostarda à parte. Aquela super maionese preparada especial, como no Fifths, nem pensar. Tenho a impressão de que em tudo o que dá muito trabalho pra fazer ou pra guardar depois os hermanos optam pela linha da simplificação. Pra não ser totalmente injusta, especialmente agora que sei que alguns argentinos me descubriram e lêem o blog de vez em quando, tem alguns lugares bacanas que servem brunch com sanduiches descolados, como o Oui Oui (rua Nicarágua, 668, palermo hollywood), mas ai entram numa categoria diferente do bom hamburgão.
Outra observação interessante de uma amiga musicista: a música brasileira mais mencionada aqui é a bossa nova. Quase ninguém refere-se ao Samba. Sabe que realmente quase nunca escuto por aqui um sambão ou um axé? Os hermanos têm realmente muito bom gosto pra escolher a nossa MPB, pois acho que brega por brega, eles ficam com o som local, afinal um bom brega pede raízes locais. Nos táxis escuto cada rima, cada melodia que tenho vontade de saltar na hora.
Ah, e teve tabém quem trocou Real por nota falsa de Pesos em casa de câmbio.
No final das contas, fora esses comentários pontuais, que vale dizer que foram respostas estimuladas, é muito bom ser turista num lugar. Seus olhos se voltam para o lindo, você quer aproveitar ao máximo, conhecer o filé mignon do lugar e ter stress zero. É justo!
O olhar com lentes de turista é extremamente relaxante. E não sendo exceção a regra, foi assim que olhei Bariloche.
A paissagem é de tirar o fôlego. O lago dá um charme todo especial para as montanhas.
Tivemos a sorte de ver a neve caindo. Pra quem não sabe, mesmo no alto inverno, lá costuma nevar a cada 15 dias. As crianças se esbaldaram na neve…..e nós adultos tomamos muito vinho, comemos todas as calorias que um bom inverno pede e, claro, fizemos comprinhas. Acho que os 4 C’s do turista são: contemplar, comer, comprar e comentar. E isso é bom demais.
Pontualmente algumas dicas
- O restaurante El rincon Patagônico tem um cordeiro (pra quem gosta) de comer rezando. Pelo menos foi essa a cara do meu marido e da minha amiga.
- Já o restaurante Cesares do famoso hotel Llao Llao, deixou muito a desejar. Os garçons, usando luvas, revelam seu prato, que chega coberto com uma tampa de inox, na hora, mas já na primeira garfada a descoberta é de uma comida apenas OKAY. Muita pompa pra gerar expectativa com direito a alguns decorados (bem bregas, não!) de “espumas” na comida, mas a entrega final decepcionou. E conta vem bem carinha, viu.
- A escola Xtreme (no Cerro Catedral) de aluguel de equipamentos de sky e snow é muito boa. Tudo é bem novinho e os professores são bem gente boa.
- O passeio de bondinho, no Cerro Otto, é bem bacana também. Quem fica meio aflito como eu ao ganhar altura pendurado naqueles cabos de aço perde o fôlego duas vezes: pelo medo e pelo visual incrivelmente lindo.
- Na rua das comprinhas no centro, Bartolomeu Mitre, entre as muitas opções de chocotales caseiros, tem uma lojinha chamada Mamuska, onde só as embalagens fofíssimas de bonequinhas russas valem o regalito.
Em tempo: o frio acaba sendo bem menos grave do que a gente imagina. Primeiro porque a gente se prepara com roupas apropriadas, sem lugar para o improviso. Meias e calça térmicas, botas impermeáveis e um bom casaco resolvem bem a parada. E segundo porque como você vai pra se divertir, já fica mais predisposoto a agüentar. O frio no rosto e a fumaçinha saindo pela boca fazem parte das atrações. E por fim, o sobe e desce o morro com o snow esquenta…. e muito.
Queridões,
sinto muito em desapontar meus queridos leitores, me desculpem o chá de sumiço, mas o trampo andou a mil esses dias. E como julho é mês de férias, a casa esteve, e ainda está, movimentada com vistas, tive até que fazer uma agenda de entradas e saídas pra não dar overbook. E como boa hostess que sou, não fico na Internet escrevendo, pois quero desfrutar de minhas visitas ao máximo; como vocês bem sabem, meu problema de amigos locais segue vigente.
Tenho sim algumas histórias novas para contar:
- o cenário político que sei que foi destaque na imprensa do Brasil, com direito a frase do Lula na revista Veja, eca!!!!
- a viagem que fizemos para Bariloche, um verdadeiro “Brasiloche”,
...mas que acho que já ando realmente bem "de cócoras", viu! A cada dia menos coisas aqui me causam estranhamento. E em relação as coisas que acho o fim da picada, de alguma maneira já estou vacinada, ainda que conceitualmente nunca estarei de acordo com elas. Hoje mesmo na fila de imigração do aeroporto a policial Argentina saiu aos berros com os turistas, que por engano, pegaram a fila de cidadãos argentinos. Puxa vida, né!, custava orientar com mais educação? Afinal os turistas enchem o bolso deles de plata e receber um passa fora logo ali na porta de entrada do país, é um péssimo marketing (se pensarmos na famosa primeira impressão). Mesmo que alguém tenha pegado a fila menor por má fé mesmo, seria uma boa oportunidade para retribuir com gentileza, para dar um tapinha de luva. Mas não, a mulher saiu aos gritos expulsando os não argentinos da fila como se fossem cachorros pulguentos.
Ainda assim a vida é bela em Buenos Aires. Sábado passado queria ter podido tirar uma foto para enviar pra vocês, na seguinte cena: andando na rua, segurando o cachorro na coleira de um lado e com o jornal e um ramalhete de flores na outra. Alguns devem estar se perguntando o que de tão especial tem isso, deve ter muita gente que sai com o cachorro pra dar uma voltinha, ou quem vai a banca comprar o jornal. Mas todo o kit e cenário me fizeram sentir re-portenha!
Logo mais escrevo os “causos” prometidos, preciso ir agora que chegaram minhas visitas, eba!!!
Um beijo gigante